A arte que vem do barro e encanta em Teresina 05/29/11
Quando veio do Maranhão para Teresina, há mais de 30 anos, Benedito Deusino Rocha – mais conhecido pelas ruas do bairro Poti Velho como seu Verdugue – já trabalhava com artesanato em argila. “Comecei a mexer com isso lá no Maranhão. Vim para passar 90 dias e acabei ficando até hoje. Quando cheguei, só duas ou três pessoas trabalhavam com artesanato em cerâmica por aqui, fui um dos primeiros”, relembra Verdugue. Quando começou, suas mãos faziam surgir do barro jarros, potes e filtros.
“Era tudo muito simples. O pessoal vinha aqui atrás de jarros para plantas e filtros de barro para água, nada mais”, conta. Aos poucos, os olhos do artista começaram a enxergar outras possibilidades. A argila passou a dar forma a personagens que integravam a rotina da comunidade do Poti Velho, um dos bairros mais antigos de Teresina, habitado por uma população ribeirinha acostumada a conviver com as cheias dos rios e com lendas populares quase centenárias, como a do temido Cabeça de Cuia.
“Retrato em minhas peças os peixes, as mulheres pescando na beira do rio Parnaíba, o sertanejo, o Cabeça de Cuia, coisas que aparecem no diaa- dia”, relata Verdugue. Com mais de 60 anos e várias histórias, Verdugue tem vivido de artesanato durante todo esse tempo. Passou por momentos difíceis, como o desmoronamento da sua casa, após uma enxurrada. Mesmo nesses períodos, o artesanato foi sua salvação. “Quando estava sem casa, dormia no meu ateliê, entre as cerâmicas”, conta.
O improviso perdurou por três anos, até que uma nova casa fosse construída com o apoio de amigos. Hoje, a vida anda bem mais calma para o artesão. Um dos pioneiros do trabalho em cerâmica no Poti Velho, Verdugue viu sua arte se multiplicar pelo bairro que escolheu para viver.
Atualmente, o ateliê do artesão divide espaço com outras 27 unidades produtivas instaladas no que se tornou o Polo Cerâmico do Poti Velho. Uma cadeia que engloba diretamente cerca de 100 pessoas que trabalham na produção de peças em argila, segundo estimativas do Sebrae-PI.
A profissionalização começou a chegar há pouco mais de dez anos, com os primeiros cursos de capacitação promovidos pelo Sebrae e pela Prefeitura Municipal de Teresina, entidades que atentaram para o potencial artístico da região, onde o acesso ao barro, matéria-prima para a produção das peças, é facilitado em razão da proximidade com os rios. A pouco mais de 30 metros do Polo Cerâmico do Poti Velho está localizado o Parque Encontro dos Rios, que marca o ponto onde ocorre a reunião das águas dos rios Poti e Parnaíba.
O contexto facilitou uma transformação. O trabalho até então realizado apenas por alguns artesãos, de forma desorganizada e descentralizada, transformou- se em pólo de atração turística e de importante potencial econômico. Ateliês improvisados nos quintais das casas viraram espaços de produção, integrados a lojas voltadas para comercialização das peças.
Hoje, Verdugue se orgulha de ostentar mais de 500 horas aula em diferentes cursos de capacitação. Dos jarros para plantar do início, ele passou a vender peças diversas para turistas de diferentes partes do Brasil. E isso porque ele se mantém distante de muitas mudanças. Sua produção ainda é feita no ateliê no fundo de casa e ele não tem loja própria para expor os produtos. O dinheiro não é muito. Nos meses bons, a soma chega a dois salários mínimos. Mas Verdugue não reclama. “O que ganho dá para pagar minha piabinha com feijão e já está bom demais”, brinca. Mas ele próprio acredita que o Polo Cerâmico do Poti Velho tem potencial para render muito mais dividendos. “O artesanato produzido aqui não deixa a desejar a nenhuma produção de outras cidades tradicionais, como Belém ou São Luís. Nosso trabalho tem qualidade”, afirma Verdugue.
O artesão serviu de influência para enteados, filhos e a nova esposa, com que está casado há cinco anos, e que veio do interior do Piauí para descobrir que também tem talento para coisa. Todos retiram o sustento do barro. Os mais jovens têm a oportunidade de vivenciar um novo momento do Poti Velho. Enteado de seu Verdugue, Antonio Carlos de Oliveira tem casa própria, carro e moto conquistados através do trabalho em seu próprio ateliê de criação. O artesanato já possibilitou que ele conhecesse a Europa, acompanhando arquitetos e artistas italianos interessados em seu trabalho.
Enquanto ele cria as peças no ateliê, com o auxílio de outros dois funcionários, a esposa cuida da comercialização na loja que o casal mantém no Polo Cerâmico.
Para Antonio, os ceramistas do Poti Velho têm o que comemorar. “Perdi muita namorada porque dizia que trabalhava com artesanato. Hoje tenho casa, carro, moto e pago escola particular para minha filha com o dinheiro que tiro daqui”, conta Antonio, que consegue lucrar mais de R$500 com a venda de uma única peça. Mas ele também aponta problemas que emperram um maior desenvolvimento do Polo do Poti Velho.
“Hoje, nosso maior problema é divulgação. Temos uma produção incrível, mas as próprias pessoas de Teresina não conhecem nosso trabalho”, diz.
Informações: Repórter: Clarissa Poty – Jornal O DIA
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